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Meu Perfil BRASIL, Sudeste, PINDORAMA, Alhambra, Homem, de 36 a 45 anos, Bulgarian, Esperanto, Arte e cultura, Música MSN -
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Blog do Caseiro
Roniquito de Chevalier, o inventor da palavra aspone
Ele às vezes entrava num botequim e se anunciava: "Senhoras e senhores, aqui Ronald de Chevalier. Dentro de alguns minutos...Roniquito!"
Mesas estremeciam. Todos sabiam que aquele rapaz bem-nascido, bem vestido, bem-falante e de profissão economista, que acabara de entrar recitando Shakespeare ou Baudelaire, iria cumprir a ameaça. Dali a três ou quatro uísques (não havia uma progressão, era de repente), ele se aproximaria de alguém (o queixo proeminente quase espetando a cara do outro) e diria alguma coisa tão ofensiva que faria o outro espumar e partir para assassiná-lo. Talvez porque o que ele dissesse fosse a verdade.
Era tão corajoso quanto frágil fisicamente. Escapou centenas de vezes de ser desmembrado ou de ter os ossos da face transformados em paçoca por punhos poderosos. Muitas vezes foi salvo pelos amigos, que brigavam por ele. Em outras, apanhou de verdade e agüentou firme. Conta-se que, numa dessas, o sujeito que o espancava perguntou-lhe:"Chega ou quer mais?". E Roniquito, no chão, com o sapato do brutamontes sobre seu pescoço, ainda conseguiu olhar para cima e articular: "Cansou, filho da puta?".
Roniquito talvez tenha sido o sujeito mais sem censura da história de Ipanema. Dizia o que pensava para qualquer um, não importava o cargo, a idade, a cor, o sexo, ou o tamanho da pessoa. Umas dessas foi o cronista Antonio Maria, que, sozinho, seria capaz de massacrar vinte Roniquitos. Numa discussão no Bottle's Bar, no Beco das Garrafas, em 1962, Roniquito provocou Maria ao duvidar de sua competência como homem de televisão. Para ele, homem de televisão era seu amigo Walter Clark, então diretor comercial da TV Rio e que estava calado na mesa, temendo o pior. Roniquito ofendia Maria e pedia o testemunho do boêmio dentista Jorge Arthur Graça, o "Sirica", também sentado com eles. Maria aguentou enquanto pôde, até que Roniquito soltou a frase final: "Anbtonio Maria, você foi parido por um ânus!". Ao ouvir isso, Maria viu vermelho e atirou-se enfurecido sobre Roniquito, Walter e quem mais estivesse por ali. A muito custo, foi contido por "Sirica" e mais uns dez.
Walter Clark e Roniquito eram amigos de adolescência em Ipanema. Conheceram-se no Colégio Rio de Janeiro, depois de uma prova de redação na qual Walter, recém-chegado de São Paulo, teria tirado 10. A primeira frase de Roniquito para Walter foi: "Você é o garoto que tirou 10? Você me parece bem medíocre...". Nunca mais se separaram. Nos anos 60 Walter contratou Roniquito para trabalhar na administração da TV Rio e toureou os insultos que Roniquito disparava contra o próprio chefe, Péricles do Amaral. Quando Walter saiu para fazer a TV Globo, em 1965, levou Roniquito com ele. Com o estrondoso sucesso da Globo a partir de 1970, a máquina começou a andar sozinha e Roniquito e o próprio Walter pareceram ficar sem função. Dizia-se que a única utilidade de Roniquito era beber uísque com Walter durante o expediente - em xícaras de chá, para dar menos na vista. Foi quando, ao ser perguntado sobre o que fazia na Globo, Roniquito respondeu com a expressão depois popularizada por Carlinhos de Oliveira: "Sou aspone. As-po-ne. Assessor de porra nenhuma". A palavra, consagrada nacionalmente, ainda não chegou ao Aurélio.
Escrito por Caseiro de Pindorama às 17h38
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Mas não era bem assim. Na própria Globo, sua atuação esteve longe de ser a de um aspone. Numa época de crise, por exemplo, ajudara a equacionar uma pesada dívida da Globo para com a Receita Federal. Era um economista brilhante, ex-aluno de Octávio Gouveia de Bulhões, Roberto Campos e Mario Henrique Simonsen e fora o orador da sua turma (da qual fazia parte Maria da Conceição Tavares). Em fins dos anos 50, saíra da faculdade para um emprego na Comissão Econômica para a América Latina (Cepal). Simonsen, por sinal, vivia consultando-o sobre questões econômicas, antes, durante e depois de ser ministro do Planejamento do governo Geisel - e sendo derrotado por ele no xadrez. Sóbrio, Roniquito trabalhava também no Ministério da Fazenda, escrevia uma coluna semanal no Correio Braziliense e dava palestras em universidades e cursos de pós-graduação.
E, sóbrio ou ébrio, passava a impressão de ser íntimo de todos os livros do mundo: falava inglês e francês, sabia poetas inteiros de cor e conhecia muita literatura, sendo apaixonado por William Faukner. Suas estantes era impecáveis, com os livros organizados por assunto. todos sempre à mão. Em música era capaz de assobiar até os clássicos. Parte dessa erudição lhe vinha de família: seu pai, o amazonense Walmik Ramayana de Chevalier, era poeta e médico (o Ramayana do nome era uma referência ao célebre poema hindú). Ramayana carimbou seus filhos com nomes bonitos, mas, para brasileiros, estrambóticos: Roniquito era Ronald Wallace Carlyle de Chevalier; dois de seus irmãos eram Stanley Emerson Carlyle de Chevalier e, claro, Scarlet Moon de Chevalier.
Por intermédio de Ramayana, Roniquito ainda usava calças curtas quando se sentou para beber pela primeira vez com Vinícius de Moraes e Paulo Mendes Campos. Ou seja, já começou entre os profissionais. Na mesma época, para exibir Roniquito, Ramayana mandou-o imitar Rui Barbosa para Lucio Cardoso. Roniquito imitou Rui à perfeição, com todos os pronomes no lugar. Lucio ficou fascinado: "Nunca vi um menino de dez anos beber tão bem!". Muitos anos depois, Lucio deu-lhe para ler os originais de seu romance Crônica da casa assassinada e pediu-lhe sua opinião. Mas, quando Lúcio o enxotou de uma festa em seu apartamento por ele estar zombando do namoro secreto de Paulinho Mendes Campos com Clarice Lispector, Roniquito foi para debaixo da janela de Lucio e começou a gritar o insulto que, na sua opinião mais o ofenderia: "Faukner do Méier! Faukner do Méier!".
A relação de Roniquito com os escritores era cruel. Ao cruzar com Fernando Sabino num restaurante, Roniquito perguntou-lhe: "Fernando Sabino, quem escreve melhor, você ou Nelson Rodrigues?". Fernando gaguejou: "Bem...Nelson Rodrigues, é claro". Mas Roniquito fulminou: "E quem é você para julgar Nelson Rodrigues?". Fez pior com o suave Antonio Callado, a quem perguntou se já tinha lido Faulkner. Callado disse que, evidentemente, já tinha lido. "Bem, se já leu Falkner, você sabe que você é um bosta", disse Roniquito.
Se Roniquito se limitasse a desfeitear os amigos, seria apenas um bebum inconveniente. Mas ele também não tinha a menor cerimõnia com o poder, nem mesmo quando esse era o truculento poder militar. Certa vez, numa recepção na TV Globo, Roniquito foi apresentado a um general. Depois de certificar-se de que ele nunca lera Machado de Assis, perguntou-lhe se pelo menos entendia de música. O general hesitou e Roniquito exemplificou:"Nem essa?". E, com a voz e os dedos imitando uma corneta, solou o toque da alvorada. Em outra visita de autoridades à Globo, Roniquito preguntou a Pratini de Moraes, ministro dos Transportes do governo Médici, se ele sabia o tamanho de um vergalhão. O ministro vacilou e Roniquito emendou: "Pois devia saber, porque o governo está enfiando um vergalhão no rabo do povo". De outra feita, no governo Geisel, quando Roniquito conversava com o seu amigo, o ministro da Previdência Luiz Gonzaga do Nascimento Silva, outro ministro, Severo Gomes, este da Indústria e Comércio e dono dos cobertores Parahyba, tentou se meter. Roniquito cortou-o: "Não estou falando com fabricante de lençóis".
Em todas essas ocasiões, Roniquito foi salvo do opróbio na Globo porque era adorado por Walter Clark e Boni. Chegou a ser posto de quarentena diversas vezes, mas a punição nunca era mais do que simbólica. De certa forma, Roniquito era o que Walter, com todo o seu poder, gostaria de ser: fino de berço e grosso por opção - Walter era o contrário.
Mas a maior sem-cerimômia de Roniquito para com o poder foi em 1967 e envolveu o marechal Costa e Silva, já presidente. Segundo a história muito bem contada por Ferdy Carneiro, Roniquito estava ciceroneando um figurão americano convidado do governo, a pedido de Nascimento Silva. Naquela manhã ele levara o visitante a almoçar no restaurante do Museu de Arte Moderna. Antes de irem para a mesa, resolveram reforçar-se no bar com alguns uísques - muitos uísques, porque o americano não enjeitava o serviço. Por coincidência, na mesma hora, Costa e Silva também estava no MAM para almoçar. A comitiva presidencial, sem as normas de segurança que depois se tornariam comuns, passou por Roniquito no momento em que este catava seu isqueiro no paletó para acender um cigarro. Com o cigarro no canto da boca, Roniquito viu o presidente. Avançou, cravou o queixo nas medalhas de Costa e Silva e perguntou: "O senhor tem fogo?". Os seguranças, como que subitamente acordados de um rigor mortis, pularam sobre ele. O americano, sem entender o que se passava e já incapaz de fazer um quatro, se a isso fosse solicitado, balbuciou qualquer coisa como "Whatthegoddamfuckdoyouthinkyouredoin´" e foi também abotoado.
Os dois foram levados para o 3 Distrito, na rua Santa Luzia, por desacato à autoridade. Diante do delegado, o americano esbravejava com voz pastosa:"I'm an American shitizen! Call the embashy!". O delegado perguntou: "Quê que o gringo tá falando?". "Ele tá dizendo que a polícia no Brasil é uma merda" traduziu Roniquito. " Ah, é? Pois ele vai ver o que é merda!", bramiu o delegado. O americano pediu para usar o telefone. Roniquito traduziu: "Ele está dizendo que no Brasil ninguém respeita os direitos humanos". "Direitos humanos é o cacete! Ele vai entrar no pau!", ganiu o delegado. O americano perguntou a Roniquito por que o delegado estava tão brabo. Roniquito sussurrou para o delegado: " Agora ele está dizendo que o Brasil é uma ditadura facista". Por sorte, quando estava prestes a ser apresentado ao pau-de-arara, o americano conseguiu mostrar um documento com o emblema do governo americano. Foi dado o telefonema e, em poucos minutos, chegaram as tropas da embaixada e do Itamaraty para libertar Roniquito e o gringo. Mas, por causa de Roniquito, conclui Ferdy, por pouco não se declarou uma guerra entre o Brasil e os Estados Unidos - tendo como pivô um palito de fósforo. Não admira que Roniquito não tenha sido levado a sério quando se ofereceu para ser trocado pelo embaixador Burke Elbrick, sequestrado em 1970.
Livre dos espíritos, Roniquito era um gentleman. Beijava as mãos das senhoras e encantava-as com sua inteligência e educação. Mas era bom não confiar. A poção que o fazia passar de Dr. Jekyll a Mr. Hyde (ou de Dr. Roni a Mr.Quito, segundo Marcos de Vasconcelos) vinha em toda espécie de garrafas. Com uma única palavra ele seria capaz de provocar um terremoto. Uma elegante senhora do Flamengo, que só conhecia o seu lado fino, convidou-o para um jantar em sua casa. Roniquito comportou-se bem no jantar, mas bebeu vinho demais, desmaiou sobre o prato e foi levado roncando para um sofá. Terminado o jantar, um dos convidados propôs uma brincadeira então na moda, "A palavra é...". No meio do jogo, Roniquito deu sinais de que estava acordando. A dona da casa achando que ele queria participar da brincadeira, foi até o sofá, de mãos postas e com um sorriso de beatitude: "Roniquito, a palavra é...". E Roniquito, meio zonzo de sono:"Ca-ra-lho". Naturalmente, foi expulso pelo filho da dona da casa.
Quem o conhecesse mal, diria que Roniquito tinha um temperamento bélico. Mas era a sua falta de paciência para com os enganadores que o levava a ser radical. Poucos meses depois do golpe de 1964, intelectuais reunidos no Teatro Santa Rosa promoviam um debate emocionado e anódino sobre os "caminhos da democracia no Brasil". Propunham "estratégias de ação". Foi quando se ouviu, do fundo da platéia, sua voz característica: "Muito bem. E quem vai fornecer as metralhadoras?". O debate acabou ali.
Roniquito foi atropelado em dezembro de 1981, em frente ao Antonio's. Um fusca o acertou, quebrou-lhe as duas pernas, jogou-o longe e fugiu sem socorrê-lo. Um ônibus que vinha atrás viu o acidente e parou. O motorista recolheu Roniquito, colocou-o no ônibus e levou-o para o Miguel Couto. Histórias surgiram até em torno desse atropelamento. Segundo uma delas, ao passar voando defronte da varanda do Antonio's e ao ver o ar assustado dos amigos, Roniquito teria perguntado: "O que foi, porra? Nunca viram o Super-Homem?".
Na verdade, o atropelamento lhe seria fatal. Roniquito quebrou as pernas em vários lugares, teve seqüelas graves e foi submetido a seis operações durante o ano de 1982. Como todo filho de médico, gostava de se automedicar e passou a tomar uma farmácia de remédios. Mas não parou de beber - mesmo de bengala e pé engessado, chegou a ir algumas vezes à Plataforma, fazendo piada com a própria desgraça. Roniquito também foi visto em restaurantes tomando um líquido que parecia café. Ao ser perguntado, "Tomando café, Roniquito?", respondeu: "Estou. Irish cofee" (café com uísque). Mas era também asmático e o uso da bombinha, misturado a bebida e remédios, provocou-lhe uma insuficiência cardíaca. Quando teve o enfarte fatal, em janeiro de 1983, estava sozinho em seu apartamento no Posto 6. Só o encontraram horas depois. Foi enterrado com o pé no gesso e de olhos abertos.
O anúncio da sua morte no Jornal do Brasil era uma enciclopédia da vida brasileira. Tinha de ministros de Estado a garçons de botequim. Carlinhos Oliveira disse a seu respeito: "Ninguém podia ser patife perto dele. Ninguém ousava". E Paulo Francis escreveu um comovente obituário na Folha de S. Paulo:"Roniquito fazia o que não temos coragem de fazer - virar a mesa contra os horrores brasileiros. Mas, o leitor dirá, por que então não escrever jornalismo polêmico ou até ficção? É uma boa pergunta. Mas talvez a resposta esteja no Brasil. Nosso horror é de uma tal ordem de vulgaridade que uma resposta vulgar de baderneiro talvez seja mais adequada do que 'análises' ou'contramodelos'. Roniquito manteve uma juventude, uma infância de poeta: protestava em pessoa, pondo a vida em risco tantas vezes, pela gente que desafiava".
... Logo que Ferreira Gullar chegou ao Rio de Janeiro, por volta de 1952, o poeta foi a um debate sobre arte contemporânea. Um dos palestrantes, um paraguaio, falava de seu interesse pelo aspecto metafísico da arte. Neste momento um jovem magro, do fundo do auditório, pediu um aparte. O palestrante concedeu, e ouviu o seguinte: “Eu só queria dizer que a única coisa metafísica que eu conheço é o cu”.
O paraguaio perdeu a fala. “Ele foi tirado da sala, carregado por dois seguranças, e continuou gritando ‘é o cu é o cu’ até a saída. Eu perguntei quem era aquele, e me responderam ‘é o Roniquito, ele vive criando confusão em todo canto’”, conta Gullar, que mais tarde viria a ser amigo da fera. Foi uma das primeiras manifestações do tipo bravio, que como se vê, não tinha critérios.
O cartunista Jaguar, 74 anos, é outro sobrevivente daquela brava geração etílica. “Roniquito era um suicida”, define. “Quando não tinha ninguém para esculhambar, esculhambava o copo”, exagera. Certa vez estavam os dois sentados no bar Degrau, depois de extensa via-sacra pelos botecos da Zona Sul, quando se aproxima da mesa uma madame falando maravilhas de um espetáculo que acabara de assistir, do coreógrafo Maurice Béjart. “Eu amo Béjart, ele é divino”, dizia. Roniquito, possuído, desbancou a granfina: “Eu acho Béjart uma merda, eu gosto é de Fudet”.
Infelizmente não encontrei a fonte.
Escrito por Caseiro de Pindorama às 17h37
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Valente Menina!
Rubem Braga
DEBRUÇADO cá em cima, no 13.° andar, fiquei olhando a porta do edifício à espera de que surgisse o seu vulto lá embaixo.
Eu a levara até o elevador, ao mesmo tempo aflito para que ela partisse e triste com a sua partida. Nossa conversa fora amarga. Quando lhe abri a porta do elevador esbocei um gesto de carinho na despedida, mas, como eu previra, ela resistiu. Pela abertura da porta vi sua cabeça de perfil, séria, descer, sumir.
Agora sentia necessidade de vê-la sair do edifício, mas o elevador deve ter parado no caminho, porque demorou um pouco a surgir seu vulto rápido. Desceu a escada fez uma pequena volta para evitar uma poça de água, caminhou até a esquina, atravessou a rua. Vi-a ainda um instante andando pela calçada da transversal, diante do café; e desapareceu, sem olhar para trás.
"Valente menina!" — foi o que murmurei ao acaso lembrando um verso antigo de Vinicius de Moraes; e no mesmo instante me lembrei também de uma frase ocasional de Pablo Neruda, num domingo em que fui visitá-lo em sua casa de Isla Negra, no Chile. "Que valientes son las chilenas!" dissera ele, apontando uma mulher de maiô que entrava no mar ali em frente, na manhã nublada; e explicara que estivera andando pela praia e apenas molhara os pés na espuma: a água estava gelada, de cortar.
"Valente menina!" Lá embaixo, na rua, era tocante seu pequeno vulto, reduzido pela projeção vertical. Iria com os olhos úmidos ou sentiria apenas a alma vazia? "Valente menina!" Como a chilena que enfrentava o mar, em Isla Negra, ela também enfrentava sua solidão. E eu ficava com a minha, parado, burro, triste, vendo-a partir por minha culpa.
Deitei-me na rede, sentindo dor de cabeça e um certo desgosto por mim mesmo. Eu poderia ser pai dessa moça — e me pergunto o que sentiria, como pai, se soubesse de uma aventura sua, como essa, com um homem de minha idade. Tolice! Os pais nunca sabem nada, e quando sabem não compreendem; estão perto e longe demais para entender. Ele, esse pai de quem ela falava tanto, não acreditaria se a visse entrar pela primeira vez em minha casa, como entrou, com sua bolsa a tiracolo, o passo leve e o riso nervoso. "Como você pensava que eu fosse?" Lembro-me de que fiquei olhando, meio divertido, meio assustado, aquela mocetona loura e ágil que só falava me olhando nos olhos, e me fez as confissões mais íntimas e graves entremeadas de mentiras pueris — sempre me olhando nos olhos. Disse-me que a metade das coisas que me contara pelo telefone era pura invenção — e logo inventou outras. Senti que suas mentiras eram um jeito enviesado que ela tinha de se contar, um meio de dar um pouco de lógica às suas verdades confusas.
A ternura e o tremor de seu duro corpo juvenil, seu riso, a insolência alegre com que invadiu minha casa e minha vida, e suas previsíveis crises de pranto — tudo me perturbou um pouco, mas reagi. Terei sido grosseiro ou mesquinho, terei deixado sua pequena alma trêmula mais pobre e mais só?
Faço-me estas perguntas, e ao mesmo tempo me sinto ridículo em fazê-las. Essa moça tem a vida pela frente, e um dia se lembrará de nossa história como de uma anedota engraçada de sua própria vida, e talvez a conte a outro homem olhando-o nos olhos, passando a mão pelos seus cabelos, às vezes rindo — e talvez ele suspeite de que seja tudo mentira.
Rio, abril de 1967.
Texto extraído do livro “A Traição das Elegantes”, Editora Sabiá – Rio de Janeiro, 1967, pág. 209.
Escrito por Caseiro de Pindorama às 17h18
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Os Ambros Suportam o Mundo
Carlos Drummond de Andrade
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus. Tempo de absoluta depuração. Tempo em que não se diz mais: meu amor. Porque o amor resultou inútil. E os olhos não choram. E as mãos tecem apenas o rude trabalho. E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás. Ficaste sozinho, a luz apagou-se, mas na sombra teus olhos resplandecem enormes. És todo certeza, já não sabes sofrer. E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice? Teu ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança. As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios provam apenas que a vida prossegue e nem todos se libertaram ainda. Alguns, achando bárbaro o espetáculo, prefeririam (os delicados) morrer. Chegou um tempo em que não adianta morrer. Chegou um tempo em que a vida é uma ordem. A vida apenas, sem mistificação.
Escrito por Caseiro de Pindorama às 16h14
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Pequeno Breviário Shawiano
Não há amor mais sincero que o da comida.
Cabe à mulher casar-se o mais cedo possível e ao homem ficar solteiro o mais tempo que pode.
A minha especialidade é ter razão quando os outros não a têm.
Quando um tolo pratica um ato de que se envergonha, declara sempre que fez o seu dever.
Quem nunca esperou não pode desesperar nunca.
Uma vida inteira de felicidade? Ninguém agüentaria: seria o inferno na terra.
O pior crime para com os nossos semelhantes não é odiá-los, mas demonstrar-lhes indiferença: é a essência da desumanidade.
Há duas tragédias na vida: uma, a de não alcançarmos o que o nosso coração deseja; a outra, de alcançá-lo.
Os ingleses nunca hão de ser escravos: eles são livres de fazer tudo o que o Governo e a opinião pública lhes permitem fazer.
(Jogo de xadrez) É um expediente tolo para fazer com que pessoas preguiçosas acreditem que estão fazendo algo muito inteligente, quando estão apenas perdendo tempo.
O lar é a prisão da moça e o hospício da mulher.
O martírio... é a única maneira de ganhar fama sem ter competência.
Quem deseja uma vida feliz com uma mulher bonita assemelha-se a quem quisesse saborear o gosto do vinho tendo a boca sempre cheia dele.
Não faças aos outros o que queres que te façam; os gostos deles podem ser diferentes dos teus.
Neste mundo sempre há perigo para aqueles que o temem.
Há apenas uma única religião, embora dela exista uma centena de versões.
Nunca espero nada de um soldado que pensa.
Sou abstêmio apenas de cerveja, não de champanha.
Não gosto de sentir-me em casa quando estou no estrangeiro.
Bernard Shaw
Escrito por Caseiro de Pindorama às 16h11
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Jurema
 Ciça Alves da Cunha
Escrito por Caseiro de Pindorama às 15h31
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Ciça Alves da Cunha

Escrito por Caseiro de Pindorama às 15h29
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É isso
"A vida é uma doença sexualmente transmissível, que tem cem por cento de taxa de mortalidade". R. D. Laing
Escrito por Caseiro de Pindorama às 11h19
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A Quatro Vozes - maravilhoso grupo vocal
http://www.youtube.com/watch?v=zidwJlqBYws
Classificação: 
Show de lançamento do cd "Interior". 27/6, 21h, Sesc Pompéia
Categoria: Link
Escrito por Caseiro de Pindorama às 18h35
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A Viajante- Rubem Braga
Com franqueza, não me animo a dizer que você não vá.
Eu, que sempre andei no rumo de minhas venetas, e tantas vezes troquei o sossego de uma casa pelo assanhamento triste dos ventos da vagabundagem, eu não direi que fique.
Em minhas andanças, eu quase nunca soube se estava fugindo de alguma coisa ou caçando outra. Você talvez esteja fugindo de si mesma, e a si mesma caçando; nesta brincadeira boba passamos todos, os inquietos, a maior parte da vida — e às vezes reparamos que é ela que se vai, está sempre indo, e nós (às vezes) estamos apenas quietos, vazios, parados, ficando. Assim estou eu. E não é sem melancolia que me preparo para ver você sumir na curva do rio — você que não chegou a entrar na minha vida, que não pisou na minha barranca, mas, por um instante, deu um movimento mais alegre à corrente, mais brilho às espumas e mais doçura ao murmúrio das águas. Foi um belo momento, que resultou triste, mas passou.
Apenas quero que dentro de si mesma haja, na hora de partir, uma determinação austera e suave de não esperar muito; de não pedir à viagem alegrias muito maiores que a de alguns momentos. Como este, sempre maravilhoso, em que no bojo da noite, na poltrona de um avião ou de um trem, ou no convés de um navio, a gente sente que não está deixando apenas uma cidade, mas uma parte da vida, uma pequena multidão de caras e problemas e inquietações que pareciam eternos e fatais e, de repente, somem como a nuvem que fica para trás. Esse instante de libertação é a grande recompensa do vagabundo; só mais tarde ele sente que uma pessoa é feita de muitas almas, e que várias, dele, ficaram penando na cidade abandonada. E há também instantes bons, em terra estrangeira, melhores que o das excitações e descobertas, e as súbitas visões de belezas sonhadas. São aqueles momentos mansos em que, de uma janela ou da mesa de um bar, ele vê, de repente, a cidade estranha, no palor do crepúsculo, respirar suavemente como velha amiga, e reconhece que aquele perfil de casas e chaminés já é um pouco, e docemente, coisa sua.
Mas há também, e não vale a pena esconder nem esquecer isso, aqueles momentos de solidão e de morno desespero; aquela surda saudade que não é de terra nem de gente, e é de tudo, é de um ar em que se fica mais distraído, é de um cheiro antigo de chuva na terra da infância, é de qualquer coisa esquecida e humilde - torresmo, moleque passando na bicicleta assobiando samba, goiabeira, conversa mole, peteca, qualquer bobagem. Mas então as bobagens do estrangeiro não rimam com a gente, as ruas são hostis e as casas se fecham com egoísmo, e a alegria dos outros que passam rindo e falando alto em sua língua dói no exilado como bofetadas injustas. Há o momento em que você defronta o telefone na mesa da cabeceira e não tem com quem falar, e olha a imensa lista de nomes desconhecidos com um tédio cruel.
Boa viagem, e passe bem. Minha ternura vagabunda e inútil, que se distribui por tanto lado, acompanha, pode estar certa, você.
Rio, abril de 1952. Texto extraído do livro "A Borboleta Amarela", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1963, pág. 145.
Escrito por Caseiro de Pindorama às 15h09
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Tchau, Visconde! Adeus, André Valli

Visconde De Sabugosa - João Bosco
Sábio sabugo Filho de ninguém Espiga de milho Bobo sabido Doido varrido Nobre de vintém
Meu caro Visconde É de trem ou de bonde Que eu chego ao picapau Aonde se esconde todo pessoal Visconde me conta Ou então faz de conta Que é no coração Das crianças daqui A alegria é maior Com Benta Anastácia os meninos A Emília Quindim Rabicó
Escrito por Caseiro de Pindorama às 09h57
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Ótima resenha sobre a biografia de Rubem Braga
O jornalista Felipe Lenhart escreveu uma bela resenha da biografia "Rubem Braga - um cigano fazendeiro do ar" (2007, editora Globo), do falecido jornalista Marco Antonio de Carvalho. o texto saiu no Diário Catarinense.
http://1cronicapordia.blogspot.com/2008/02/nanopinio-31.html
Para não perder a viagem, uma crônica de Braga:
Nascer no Cairo, ser fêmea de cupim
Conhece o vocábulo escardinchar? Qual o feminino de cupim? Qual o antônimo de póstumo? Como se chama o natural do Cairo?
O leitor que responder "não sei" a todas estas perguntas não passará provavelmente em nenhuma prova de Português de nenhum concurso oficial. Alias, se isso pode servir de algum consolo à sua ignorância, receberá um abraço de felicitações deste modesto cronista, seu semelhante e seu irmão.
Porque a verdade é que eu também não sei. Você dirá, meu caro professor de Português, que eu não deveria confessar isso; que é uma vergonha para mim, que vivo de escrever, não conhecer o meu instrumento de trabalho, que é a língua.
Concordo. Confesso que escrevo de palpite, como outras pessoas tocam piano de ouvido. De vez em quando um leitor culto se irrita comigo e me manda um recorte de crônica anotado, apontando erros de Português. Um deles chegou a me passar um telegrama, felicitando-me porque não encontrara, na minha crônica daquele dia, um só erro de Português; acrescentava que eu produzira uma "página de bom vernáculo, exemplar". Tive vontade de responder: "Mera coincidência" — mas não o fiz para não entristecer o homem.
Espero que uma velhice tranqüila - no hospital ou na cadeia, com seus longos ócios — me permita um dia estudar com toda calma a nossa língua, e me penitenciar dos abusos que tenho praticado contra a sua pulcritude. (Sabem qual o superlativo de pulcro? Isto eu sei por acaso: pulquérrimo! Mas não é desanimador saber uma coisa dessas? Que me aconteceria se eu dissesse a uma bela dama: a senhora é pulquérrima? Eu poderia me queixar se o seu marido me descesse a mão?).
Alguém já me escreveu também — que eu sou um escoteiro ao contrário. "Cada dia você parece que tem de praticar a sua má ação — contra a língua". Mas acho que isso é exagero.
Como também é exagero saber o que quer dizer escardinchar. Já estou mais perto dos cinqüenta que dos quarenta; vivo de meu trabalho quase sempre honrado, gozo de boa saúde e estou até gordo demais, pensando em meter um regime no organismo — e nunca soube o que fosse escardinchar. Espero que nunca, na minha vida, tenha escardinchado ninguém; se o fiz, mereço desculpas, pois nunca tive essa intenção.
Vários problemas e algumas mulheres já me tiraram o sono, mas não o feminino de cupim. Morrerei sem saber isso. E o pior é que não quero saber; nego-me terminantemente a saber, e, se o senhor é um desses cavalheiros que sabem qual é o feminino de cupim, tenha a bondade de não me cumprimentar.
Por que exigir essas coisas dos candidatos aos nossos cargos públicos? Por que fazer do estudo da língua portuguesa unia série de alçapões e adivinhas, como essas histórias que uma pessoa conta para "pegar" as outras? O habitante do Cairo pode ser cairense, cairei, caireta, cairota ou cairiri — e a única utilidade de saber qual a palavra certa será para decifrar um problema de palavras cruzadas. Vocês não acham que nossos funcionários públicos já gastam uma parte excessiva do expediente matando palavras cruzadas da "Última Hora" ou lendo o horóscopo e as histórias em quadrinhos de "O Globo?".
No fundo o que esse tipo de gramático deseja é tornar a língua portuguesa odiosa; não alguma coisa através da qual as pessoas se entendam, ruas um instrumento de suplício e de opressão que ele, gramático, aplica sobre nós, os ignaros.
Mas a mim é que não me escardincham assim, sem mais nem menos: não sou fêmea de cupim nem antônimo do póstumo nenhum; e sou cachoeirense, de Cachoeiro, honradamente — de Cachoeiro de Itapemirim!
Rio, novembro, 1951
Texto extraído do livro "Ai de Ti, Copacabana", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1960, pág. 197.
Escrito por Caseiro de Pindorama às 15h22
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Entrevistas do Roda Viva estão disponíveis na íntegra
Desde 29 de setembro de 1986, o programa Roda Viva apresenta, semanalmente, entrevistas com personalidades, brasileiras e estrangeiras, de diferentes áreas e tendências político/ideológica, com total liberdade de opinião e de escolha dos entrevistados e entrevistadores, só possível numa emissora pública como a TV Cultura, o que transformou o Roda Viva num importante painel do pensamento contemporâneo.
No sítio www.rodaviva.fapesp.br estão disponibilizadas, na íntegra, todas as entrevistas feitas pelo programa em seus quase 21 anos de existência, permitindo que pesquisadores, estudantes, telespectadores e internautas acessem seu conteúdo no formato texto, acrescidos de verbetes, referências, fotos e pequeno vídeo. Um sistema de navegação simples permite que se encontre rapidamente um determinada entrevista, e um mecanismo de busca e a divisão por cinco grandes temas, visa a facilitar pesquisas mais específicas.
A publicação das entrevistas, em formato de texto, cria um registro importante na história recente, assegura sua preservação definitiva, possibilita acesso livre a todo o conteúdo e reconstrói o processo de formação da agenda pública brasileira nas duas últimas décadas, quando se deu a discussão das questões mais relevantes de nossa atualidade, bem como a sua continuidade futura.
O Memória Roda Viva permitirá, ainda, retroalimentar a pauta do programa, a partir de críticas e sugestões, que poderão ser registradas no site, sistematizando temas e questões que estão no cerne de uma agenda pública de discussão dos problemas brasileiros e internacionais.
Escrito por Caseiro de Pindorama às 15h10
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O Saci na história do Brasil - O anão sortudo

Na década de 1990, o Deputado João Alves provocou gargalhadas no Congresso Nacional e revoltou o país ao alegar que ficara rico por ser um homem de muita sorte, ganhador de mais de 200 prêmios da loteria. Como seus pares não acreditaram em seus argumentos, Alves foi cassado. Uma grande injustiça! Ícone do grupo que ficou conhecido como “Os anões do orçamento”, o deputado de fato falara a verdade, ao menos naquela ocasião. Anos depois da injusta cassação, à beira da morte, Alves confidenciou a um de seus enfermeiros a verdadeira origem de sua bem-aventurança. Numa de suas viagens para consultar as bases, Alves encontrava-se em uma estrada de Alagoas, entre nada e lugar nenhum, quando foi vítima de um violento piriri. Encostou sua pick-up e aliviou-se na moita mais próxima. Já refeito, caminhava pelo mato quando avistou um pano vermelho atrás de uns arbustos. Intrigado, Alves meteu a mão na moita e puxou. Batata! Era a carapuça de um saci. Conhecedor do folclore de Pindorama, o deputado logo se deu conta de que tinha ouro puro nas mãos. Hábil negociador, devolveu o gorro ao saci mediante um acordo: o danadinho faria com que ele ganhasse 200 vezes na loteria. E assim foi.
Escrito por Caseiro de Pindorama às 18h24
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A clonagem da vaca Mocha - Um projeto
Ilustração 1 - Zé Carneiro ordenhando a vaca
- Que miséria, Mocha. Esse pouquinho de leite não vai dar nem para o café da manhã das crianças. Outro dia a Dona Benta já me deu o maior pito porque teve de comprar leite no armazém do Elias. Vai vaquinha, deixa de preguiça!
Ilustração 2 - O Visconde, que vinha passando pelo curral, quis saber o que estava acontecendo.
- Pois é, Visconde, o leite da Mocha não ta dando mais pra nada. Faz tempo que a Tia Nastácia nem consegue fazer queijo e coalhada.
Ilustração 3 - Sem dizer nada, o sábio sai em disparada.
- Que será que deu nele? O Visconde morre de medo da Mocha... mas bem que ele podia me ajudar a fazer essa preguiçosa trabalhar mais. – diz Zé Carneiro.
Ilustração 4 - Já na biblioteca, Visconde parece ter encontrado a solução para o problema:
- Vamos clonar a Mocha. A partir de uma célula dela faremos dezenas, quem sabe centenas de vaquinhas, que produzirão milhares de litros de leite. Poderemos vender leite para todos os sítios. Nunca mais faltará leite na região!
Ilustração 5 – Emília entra na biblioteca.
- Epa, vejo que o Sabugosa teve mais uma de suas idéias mirabolantes, disse a Emília. Que história é essa com a Mocha, Visconde? Você que não se atreva a machucar a vaquinha, heim, seu sabugo de milho desmiolado!
- Não é nada disso, Emília. A clonagem é uma das mais modernas técnicas científicas. O primeiro animal clonado, em 1997, foi uma ovelha chamada Dolly. De lá para cá, muitos outros animais já foram duplicados. As células das pessoas, das plantas, dos animais, enfim de todos os seres vivos, contém o DNA, que determina todas as suas características. A ciência já é capaz de, a partir de um ser vivo qualquer, produzir outro igualzinho.
- Sem tirar nem pôr? Quer dizer que podemos fazer 10 Emílias? Ou 100? Todas obedecendo às minhas ordens?
- Isso mesmo. Quer dizer, no seu caso seria mais fácil pedir para a Tia Nastácia costurar outras bonecas e jogar um pouco de pó de pirlimpimpim para que elas ficassem destrambelhadas como você. Mas, pensando bem, ninguém agüentaria mais de uma Emília.
- Sei. Já vem você com desculpas.
- Não é nada disso. Ah, Emília, chega de papo furado pois eu tenho muito trabalho pela frente.
Ilustração 6 - Enquanto Visconde mergulha na internet para descobrir mais informações para a clonagem da Mocha, Emília vai correndo contar as novidades para o restante da Turma.
- Pessoal, pessoal! O Visconde disse que vai fazer um monte de cópias da vaca Mocha.
- Que história é essa, Emília? Pergunta Dona Benta.
- É isso mesmo. Ele disse que vai tirar um pedaço da pobre vaquinha e fazer um monte de vaquinhas, iguaizinhas à Mocha.
- Que máximo. O Visconde é mesmo um gênio! - diz Pedrinho.
- Sei não. Eu vivo pisando nos cocôs da Mocha quando ando pelo pasto. Já imaginou com um monte de vaquinhas? – diz Narizinho.
- Isso não é problema, responde Emília. Se aquele sabugo matusquela é mesmo capaz de fazer outras “Mochas”, eu vou dar um jeito de melhorar algumas coisinhas. Ao invés de cocô, as novas “Mochinhas” vão espalhar flores pelo pasto. Eu também vou trocar aquelas manchas pretas sem graça por listras, como as das zebras. E vou...
- Calma lá Dona Emília! Vá chamar agora mesmo o Visconde, para que ele me explique direitinho essa história.
Ilustração 7 - Minutos depois, Visconde chega para se explicar.
- Dona Benta, eu farei do Sítio do PicaPau Amarelo uma referência científica.
- Visconde, me explique essa história desde o começo.
Então, o sábio fala à Dona Benta sobre as angústias de Zé Carneiro diante da pouca quantidade de leite produzida pela Mocha e de sua idéia para abastecer todos os sítios da região.
Ilustração 8 – Dona Benta interrompe o Visconde.
- Visconde, você, um cientista maravilhoso, tem sempre idéias muito avançadas. E respeitáveis. A clonagem é hoje uma técnica importantíssima para ajudar na cura de doenças, como acontece com as células-tronco, produzidas para substituir células que não funcionam direito, ou para o tratamento de lesões na coluna, diabetes e outras doenças. Mas a clonagem de animais, como a vaca Mocha, ainda requer muitos estudos. No caso da ovelha Dolly, por exemplo, o seu clone viveu a metade do tempo que as ovelhas costumam viver e até hoje os cientistas não sabem muito bem a razão disso.
Ilustração 9 - Visconde parece inconsolável. E agora, o que diria ao Zé Carneiro?
- Mas não se preocupe, Visconde – completa Dona Benta. Nós vamos dar um jeito no problema da falta de leite. Amanhã mesmo eu vou ao sítio do Compadre Teodorico para comprar três novas vaquinhas. Além de resolvermos o problema do leite, deixaremos a Mocha muito mais contente com as novas companheiras.
- Ótima idéia, Vovó! –vibram Pedrinho e Narizinho.
Ilustração 10- Quem não gostou muito da solução foi a Emília, que saiu resmungando:
- Droga, e as minhas vaquinhas listradas?...
Todos sorriem.
Escrito por Caseiro de Pindorama às 20h33
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Meu voto é do Saci!

Escrito por Caseiro de Pindorama às 14h25
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Vote no Saci para mascote da Copa de 2014

Convocação do Camarada Mouzar Benedito:
Oi, Numa reunião ontem na Biblioteca Monteiro Lobato, nos lembramos de uma coisa: vem aí a Copa do Mundo (2014 tá longe, mas é bom começar logo) e com certeza os marketeiros e lobbistas vão querer inventar uma mascote besta que nem o tal de Cauê (aquele sol esquisito) dos Jogos Panamericanos. Que tal começarmos já uma campanha para que a mascote seja o Saci? Veja as vantagens: Primeiro, não seria preciso pagar direitos autorais a ninguém. No máximo, o que poderia ser feito é um concurso para cartunistas etc, para escolher o melhor desenho. E por que o Saci? - Ele é a síntese da formação do povo brasileiro: É o mito brasileiro mais popular, o único conhecido no Brasil inteiro (Boitatá, Curupira e mesmo a Iara requerem explicações quando a gente fala deles, em alguns lugares. O Saci não). É o típico brasileiro: mesmo pelado e deficiente físico, é brincalhão e gozador. E tem mais: - no início era um indiozinho protetor da floresta. Tinha duas pernas. - depois foi adotado pelos negros e virou negro. A perda de uma perna tem várias histórias. Uma delas é que ele foi escravizado, ficou preso pela perna, com grilhões, e cortou a perna presa. Preferiu ser um perneta livre do que escravo com duas pernas. É um libertário, então. - dos brancos, ganhou o gorrinho vermelho, presente em vários mitos europeus. O gorrinho vermelho era também usado pelos republicanos, durante a Revolução Francesa. Na Roma antiga, os escravos que se libertavam ganhavam um gorrinho vermelho chamado píleo. Só ná tem orientais nessa história porque eles chegaram mais tarde, já no século XX. Mas dizem que já foi visto um Saci de olhinhos puxados, no bairro da Liberdade, o Sashimi. Você pode entrar no sítio da Sosaci que tem um monte de histórias de gente que viu o Saci, inclusive esse Sashimi (é a quarta ou quinta história). Então, olha aí uma proposta, pedido, convocação ou sei lá o quê: entre nessa também. Se você topar, vai ser uma baita força. Ajude a divulgar esta idéia e, se tiver condições, escreva, fale com quem tem espaço na mídia para que declarem sua adesão nos jornais, revistas, rádio, TV, blogues etc. Já pensou o Saci em camisetas no mundo inteiro? Ele provocaria muito interesse dos outros povos para a cultura popular brasileira. Coisa que esses símbolos bestas (como o dos Jogos Panamericanos) não fazem. Um abração. Mouzar
Link do site da Sosaci: http://www.sosaci.org/
Comentário: A idéia é ótima, mas incompatível com os interesses difusos da turma da bola (Rick Teixeira, J.Havilla etc.). O simpático Saci é o retrato de um Brasil que eles querem esconder. Dentre os negros, a única candidatura possível é de uma daquelas maravilhosas mulatas do Lan. Um dos pontos que certamente seria usado para derrubar a candidatura do Saci é o pito. Negro, pelado e perneta ainda vai, mas fumante?... dirão os guardiões da moral e dos bons costumes.
Escrito por Caseiro de Pindorama às 09h48
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Eu sou um facínora
Trambiques e pilhagens acontecem desde os primórdios. Os maiores picaretas sempre procuraram envergar "véus de decência". Afinal, à mulher de César, não basta ser honesta. Mas de uns anos para cá, os bárbaros passaram a nomear os próprios bois. A maior empresa de "marketing esportivo" de Pindora, que se locupleta em tenebrosas transações que envolvem clubes, CBF, coleguinhas da imprensa etc., chama-se Trafic. A empresa contratada por W.Bush para formar esquadras de mercenários utilizadas em suas guerras pelo petróleo chama-se Blackwater. Talvez mereçam elogios pela coragem. Talvez prenunciem uma nova era. Não deixa de ser assustador.
Escrito por Caseiro de Pindorama às 09h58
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Aracruz, o desenvolvimento que lula quer para o país
“Nos últimos 40 anos, a Aracuz construiu um império no Espírito Santo. Nesse período desmatou florestas, ocupou áreas indígenas, represou rios e chegou a inverter o curso de um outro para abastecer uma de suas fábricas. Tudo com a conivência do poder público. A empresa sempre manteve fortes ligações com políticos. Somente nas três últimas eleições, doou R$ 6,5 milhões a candidatos do estado”. Este texto subscreve uma grande foto colorida de um flagrante de devastação florestal, na capa do Correio Braziliense do último domingo. Encerra o texto uma chamada para a reportagem que ocupa as três páginas seguintes, com o sugestivo título de “Feridas abertas na floresta”.
O CB abre a reportagem com o subtítulo “Empresa de celulose represa e inverte curso de rios, seca nascentes e destrói mata nativa para plantar eucalipto no Espírito Santo e na Bahia, com a conivência do poder público”. A matéria de Lúcio Vaz, enviada de Aracruz (ES), revela as entranhas da construção do império empresarial que fez da Aracruz Celulose a maior produtora mundial de celulose de eucalipto. Vaz mostra a ligação da empresa, desde os anos 60, com o mundo político, a quem doou cerca de R$ 6,5 milhões só nas últimas eleições. E exibe o efeito devastador da Aracruz sobre o que ali resta da Mata Atlântica, sobre os rios e sobre as terras de índios e quilombolas.
O trabalho de Vaz amplia o que já se sabe da ação da Aracruz e outras no Rio Grande do Sul. Ali, a expansão das plantações de eucalipto e a implantação de novas fábricas de celulose vêm produzindo extensas áreas desertificadas. Hoje, a empresa mantém 203 mil hectares de plantio no Espírito Santo e na Bahia, onde se apropria de recursos hídricos, causando fortes danos ambientais. Estudo da Associação de Geógrafos do Espírito Santo revela que a quantidade de água consumida por dia pela Aracruz da Barra do Riacho, no processamento e branqueamento da celulose, ronda os 250 mil metros cúbicos, o que equivale ao consumo diário de uma cidade de 2,5 milhões de habitantes.
E o que se vê? Destruição de matas nativas, assoreamento dos cursos d’água, contaminação das águas por produtos químicos e por despejos sem tratamento (pelos povoamentos desordenados), represamento de águas, obstrução dos leitos por estradas de transporte de eucalipto, eliminação da vida. E nada disso é novo, desde a denúncia inicial do biólogo Augusto Ruschi em 1971, renovada anos a fio, por entidades de defesa do meio ambiente, publicações especializadas e diversos movimentos sociais. Desgraçadamente, não há nenhuma repercussão institucional ou midiática de peso. As barreiras, parece, estão nos financiamentos de campanha e nas verbas publicitárias.
Fonte: Boletim HSLiberal
Escrito por Caseiro de Pindorama às 10h32
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Pindorama, um eterno balcão de negócios
Rede pagou R$ 1,5 milhão a auditores após mudança
McDonald's não comenta caso, que reduziu custos para franqueados no Brasil
Ex-executivos demitidos disseram à Justiça do Trabalho que matriz sabia da ação de lobistas na Receita na gestão Everardo
LEONARDO SOUZA
Dois dos principais executivos do McDonald's até meados de 2005, os ex-vice-presidentes no Brasil Eduardo Mortari e Jadir de Araújo disseram à Justiça que a matriz da rede de lanchonetes nos EUA sabia da contratação de lobistas para modificar regras tributárias no país em benefício da empresa, no caso conhecido como "venda de legislação" na Receita Federal. Conforme a Folha publicou em junho de 2005, a rede planejou e obteve alteração na legislação para recolher menos Imposto de Renda. Para alcançar o objetivo desejado, ela contratou indiretamente os serviços dos então auditores fiscais Sandro Martins e Paulo Baltazar, demitidos da Receita há duas semanas pelo ministro Guido Mantega (Fazenda) como resultado da investigação sobre a "venda de legislação". A empresa pagou R$ 4,45 milhões ao escritório de lobby de Brasília RPN, dos quais R$ 1,5 milhão à empresa dos dois auditores, a Martins Carneiro Consultoria, dias depois de a legislação ter sido alterada nos moldes pretendidos pelo McDonald's. O ato administrativo com a mudança foi assinado pelo então secretário da Receita, Everardo Maciel, que nega ter agido para beneficiar a cadeia de restaurantes. Quando a Folha publicou as primeiras reportagens sobre o envolvimento do McDonald's no escândalo, a empresa negou que a matriz nos EUA tivesse conhecimento da contratação de lobistas ou de auditores da Receita. Pela versão da empresa, a contratação teria sido iniciativa isolada dos executivos no Brasil. Assim, Mortari e Marcel Fleischmann, ex-presidente no Brasil, foram demitidos por justa causa. Jadir teria sido forçado a pedir demissão. Mortari entrou com ação na Justiça do Trabalho contra o McDonald's. Por meio de sua assessoria, o McDonald's informou que não iria comentar o assunto. "Que a contratação da RPN não era segredo na reclamada [McDonald's]; que o depoente conversou com o sr. Eduardo Sanches [então presidente do McDonald's para a América Latina] sobre o assunto dedutibilidade de royalties tanto antes quanto após a contratação da RPN", disse Jadir, como testemunha de Mortari, em depoimento ao Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo. Foi Jadir, na condição de vice-presidente-executivo no Brasil, que assinou o contrato com a RPN. "Que o sr. Eduardo Sanches tinha acesso e sabia do contrato, dos valores envolvidos e do objeto da contratação [...]. Que a reclamada possui auditoria interna e externa realizada pela Ernest Young, que reporta todas as verificações ao McDonald's Corporation, afirmando que, caso houvesse firmado tal contrato sem autorização, o fato seria do conhecimento da matriz americana", completou Jadir. "Que o sr. Eduardo Sanches, no final do ano de 2000, através de uma conferência por telefone com o sr. Marcel Fleischmann [...], autorizou a contratação da RPN para tratar especificamente do assunto dedutibilidade de royalties, afirmando o depoente que estava na sala do sr. Marcel nesta oportunidade", disse Mortari no TRT. O advogado de Mortari, José Augusto Rodrigues Júnior, afirmou que seu cliente tem provas de que a matriz sabia dos objetivos da contratação da RPN. Citou como exemplo troca de e-mails entre executivos da matriz tratando do tema. Os R$ 4,45 milhões foram pagos pela cadeia de lanchonetes à RPN -cujo faturamento anual não passava de R$ 79 mil- em 8 de março de 2002, dez dias após a publicação, no "Diário Oficial" da União, do ato administrativo assinado por Everardo. Três dias depois, o R$ 1,5 milhão foi transferido para a consultoria dos auditores. "Tenho a satisfação de comunicar uma excelente notícia que beneficiará a todos os franqueados: finalmente conseguimos uma posição da Receita Federal reconhecendo a dedutibilidade dos royalties [...]. Esse reconhecimento veio através de "ato declaratório interpretativo" [...] assinado pelo secretário da Receita Federal [Everardo Maciel]", escreveu Jadir exatamente no dia 11 de junho em comunicado aos franqueados da rede no país. Quando o ato foi assinado pelo ex-secretário da Receita, Sandro Martins exercia o cargo de seu assessor especial no fisco, responsável por elaborar pareceres que embasavam as decisões de Everardo. Nessa época, Paulo Baltazar estava aposentado. Essa sempre foi a tática dos dois -um ficava na Receita, e o outro, fora, trabalhando na Martins Carneiro. No fisco, eram chamados pelos colegas de "anfíbios" (ora trabalhavam para a Receita, ora para a iniciativa privada contra o fisco). Segundo documentos obtidos pela Folha em 2005, o objetivo do McDonald's era permitir que os franqueados pudessem deduzir do Imposto de Renda até 5% dos valores pagos por royalty -daí Jadir e Mortari terem dito que ambos trataram com o então presidente do McDonald's para a América Latina a contratação da RPN para resolver a questão da "dedutibilidade de royalties". Até então, o entendimento na Receita era que a dedução não poderia passar de 1%. Aqueles que deduziam valores acima desse percentual eram autuados pelo fisco. O ato assinado por Everardo passou a ser usado pelos franqueados para contestar as autuações.
Fonte: Folha de S.Paulo - 03-06-08
Escrito por Caseiro de Pindorama às 13h55
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Obras de uma cyberamiga talentosa


By Ciça Alves da Cunha Fonte: http://www.orkut.com/Profile.aspx?uid=8209061392346488187
Escrito por Caseiro de Pindorama às 11h29
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Pindorama
Sandra Perez & Paulo Tatit
(Terra à vista!)
Pindorama, Pindorama
É o Brasil antes de Cabral
Pindorama, Pindorama
É tão longe de Portugal Fica além, muito além
Do encontro do mar com o céu
Fica além, muito além Dos domínios de Dom Manuel
Vera Cruz, Vera Cruz Quem achou foi Portugal
Vera Cruz, Vera Cruz Atrás do Monte Pascoal Bem ali Cabral viu Dia 22 de abril Não só viu, descobriu
Toda a terra do Brasil
Pindorama, Pindorama
Mas os índios já estavam aqui Pindorama, Pindorama Já falavam tudo em tupi
Só depois, vêm vocês
Que falavam tudo em português
Só depois com vocês
Nossa vida mudou de uma vez
Pero Vaz, Pero Vaz
Disse numa carta ao rei Que num altar, sob a cruz Rezou missa o nosso frei Mas depois seu Cabral Foi saindo devagar Do país tropical Para as Índias encontrar
Para as índias, para as índias Mas as índias já estavam aqui Avisamos: "olha as índias!" Mas Cabral não entende tupi Se mandou para o mar Ver as índias em outro lugar Deu chabu, deu azar Muitas naus não puderam voltar
Mas, enfim, desconfio Não foi nada ocasional Que Cabral, num desvio Viu a terra e disse: "Uau!" Não foi não, foi envio Foi um plano imperial Pra aportar seu navio Num país monumental
Ao Álvares Cabral Ao El Rei Dom Manuel Ao índio do Brasil E ainda quem me ouviu Vou dizer, descobri O Brasil tá inteirinho na voz Quem quiser vai ouvir Pindorama tá dentro de nós
Ao Álvares Cabral Ao El Rei Dom Manuel Ao índio do Brasil E ainda quem me ouviu Vou dizer, vem ouvir É um país muito sutil Quem quiser descobrir Só depois do ano 2000
Escrito por Caseiro de Pindorama às 14h56
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Ode a Geraldo Assobiador
Luiz Antonio Simas
Poucas coisas me fascinam mais em relação ao Brasil do que a impressionante capacidade que o povo brasileiro teve de apropriar-se do futebol europeu - o violento esporte bretão - e reproduzi-lo não como simulacro, mas como reinvenção. Esse talvez seja o traço distintivo mais importante de um certo modo de ser brasileiro; a capacidade de apropriação de complexos culturais estranhos e a reprodução deles como elementos originais; brasileiríssimos. Não consigo pensar, em suma, o Brasil sem refletir sobre o futebol e a criação de um modo brasileiro de jogar bola completamente diferente do sisudo jogo inventado pelos britânicos. Isso vale para a música, a dança, a culinária, as formas de amar, sofrer, chorar, enterrar os mortos e celebrar a vida. Amamos, dançamos, morremos, choramos, celebramos, comemos e tomamos cachaça, enfim, da mesma forma como jogamos bola.
Digo isso e penso, imediatamente, na figura maior de um craque que, infelizmente, não tive a oportunidade de ver nos gramados como deveria. Falo do meio-campista do Flamengo de meados da década de 1970 Geraldo Cleofas Dias Alves, o Geraldo Assoviador. Lembro-me que, eu menino, quase adolescente, ouvia impressionado meu avô contar sobre uma mania que Geraldo tinha durante as partidas, a de assoviar enquanto realizava as jogadas mais inusitadas em campo.
Esse hábito de jogar assoviando deu a Geraldo a fama de irresponsável, irreverente, descompromissado, chupa sangue e outras baboseiras do gênero. Queriam que o neguinho Geraldo, mineiro de Barão de Cocais, se comportasse como um respeitável centro-médio europeu, de cenho franzido e olhar de touro brabo, uma espécie de candidato a titular da seleção da Escócia. Mas Geraldo era brasileiro.
Não percebiam, os senhores críticos, que Geraldo jogava bola com a mesma naturalidade com que cruzava uma esquina, comia um tutu com torresmo ou tomava uma abrideira para chamar o apetite. Geraldo jogava como vivia - ou vivia como jogava, vá lá. Imagino uma cena ( será que ocorreu?) que é a seguinte: durante um clássico no Maracanã, estádio lotado, uma pipa cai no meio do campo; Geraldo captura, com jeito moleque, o papagaio e começa a empiná-lo, enquanto dribla os adversários e assovia em direção ao gol.
Lembro-me, impressionadíssimo, quando numa certa tarde de 1976 recebi a notícia de que Geraldo, o craque que assoviava, tinha acabado de morrer, aos 22 anos de idade, em consequência de uma parada cardíaca sofrida durante uma operação de amígdalas. Quero crer que aquela foi a primeira notícia de morte que recebi na minha vida. Nunca mais esqueci. Meu avô, chorando copiosamente, repetia apenas: - cracaço! cracaço! Que pena. Você, que gosta tanto de futebol, não viu esse garoto jogar.
Muito tempo depois - meu avô já tinha ido oló - eu estava num terreiro de candomblé para assistir a um xirê em homenagem a meu pai Ogum, o poderoso orixá dos metais e da guerra. Durante a festança, Exu tomou o corpo de uma yaô para participar da alegria de Ogum, seu dileto irmão. Imediatamente, para se fazer reconhecido na terra, Exu gingou como exímio capoeirista e deu o seu ilá - o som que o orixá emite quando sai do Orum, a morada dos deuses, e vem ao Ayê , o nosso mundo, para comungar com os homens. O ilá de Exu, meus senhores, era um assovio longo e afinado.
Ê, meu avô, eu queria que o senhor soubesse que ali, na ginga e no assovio do compadre, eu vi Geraldo - um cracaço ! - jogar.
Fonte: http://hisbrasil.blogspot.com/
Escrito por Caseiro de Pindorama às 16h14
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Aquarela do Brasil: o nascimento do Zé Carioca
http://www.almacarioca.com.br/arte070.htm
Filme em que o Pato Donald é apresentado ao recém criado Zé Carioca e às atrações da Cidade Maravilhosa. Apesar de maravilhoso, o filme nunca foi lançado comercialmente, por falta de acordo entre os autores e Disney. Detalhe: tudo foi feito na década de 50, "no braço", sem os recursos tecnológicos que temos hoje. Alguns ranzinzas torcerão o nariz para o fato de o filme reforçar o esterótipo da malemolência brazuca. A estes eu diria: o estereótipo de 60 anos atrás era ótimo, não?
Escrito por Caseiro de Pindorama às 14h57
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